Agroecologia e Red de Mujeres Rurales de Uruguay: em San Jacinto, a agricultura familiar também desperta a fome de viver em paz com a Madre Naturaleza

CRÔNICA

Por Eliade Pimentel

Os países sul-americanos se assemelham sobretudo em sua dificuldade de implementar melhor qualidade de vida para promover o desenvolvimento da sociedade no sentido  humano, no sentido ambiental, no sentido de pertencimento.

No Uruguai, tanto quanto no Brasil, na zona rural, também há dificuldade em se manter as tradições. Porém, ao visitarmos a Escola Rural, em San Jacinto, no Departamento de Canelones, vimos um exemplo real de modo de produção ancestral, que representa e simboliza a ocupação por imigrantes de uma maneira planejada e organizada, forjada pela necessidade.

Com o passar do tempo, e com tantas mudanças de comportamento, as famílias ainda mantêm suas tradições, abrindo as porteiras da comunidade ao turismo rural. Atualmente, as pessoas da comunidade, principalmente as mulheres, utilizam suas prendas ancestrais na Festa da Chacra, que ocorre anualmente no final de outubro e início de novembro: 30, 31 de outubro e 1º de novembro, e também nas feiras e mercados locais.

Eliade Pimentel com Perla Delgado que integra a Red de Mujeres Rurales de Uruguay por meio do grupo Manos de Totoral

De modo que o propósito da visita de ‘periodistas’, de jornalistas e comunicadores de turismo, por meio do I Encontro Internacional Febtur, organizado pela Associação Turística de Canelones (ATC), foi justamente abrir os horizontes para que valorizemos aquilo que é tão essencial para a humanidade.

A agricultura familiar é um dos meios de produção mais remotos da humanidade. É por meio da agricultura familiar que as famílias se ajudam, se dão as mãos pela questão da subsistência. Imagine, eu produzo o trigo, a minha vizinha tem um forno que ajuda a assar. Tem um moinho que vai ajudar a moer esse trigo e processar. E juntamos várias mãos e fazemos esse pão.

Esse pão que não é só um pão, conforme estamos acostumados com a ideia daquele pão quentinho do dia a dia, mas o ‘pão nosso’ de cada dia. O alimento que nutre nosso corpo e nos dá força para recomeçar, ‘porque não existe uma noite tão longa que não venha o dia’. E é justamente nesse dia, nesse sentido de ‘carpe diem’, de aproveite o dia, que a gente vê no olhar dessas famílias o quanto elas aproveitam cada minuto em que elas estão em seu habitat.

A dança que elas fizeram para a gente, a forma com que elas nos receberam com comidas típicas, com alegria, com a organização coletiva, como é o caso das mulheres que compõem a Rede de Mulheres Rurais, dentre as quais fiz amizade com Perla Delgado, do grupo Manos de Totoral.

Decoração na casinha/museu recria o lar de uma família rural conforme era antigamente

Lá também fui levada a uma casinha/museu que reproduz a  casa da avó de uma moça chamada Rocio Sosa, que recriou a casa como se fosse de sua ‘abuela’, de sua avó, com objetos antigos, livros e até a cartilha de alfabetização do seu marido. Então, só posso dizer que foi incrível conhecer essa vila tão simples, tão singela, tão bucólica e ao mesmo tempo tão representativa de uma ocupação forjada pela necessidade, mas planejada para ser ocupada por todos de uma forma comunitária, como realmente é a raiz dessa palavra ‘comum’, em que todas as pessoas são semelhantes, têm os mesmos direitos e os mesmos deveres. Para viverem em harmonia.

Por isso a agricultura familiar é tão forte, no sentido mais coerente possível: como amar a terra se eu não entendo que o meu alimento vem da terra? Como ajudar a preservar o meio ambiente sem entender que é o meio ambiente, com a prodigalidade da Mãe Terra, que nos provê o alimento, que nos provê o ar que a gente respira, que nos provê o sol, que nos dá toda essa vitamina D para nos sustentar e nos dar saúde.

Rocio Sosa (à esquerda) fez a casinha/museu em homenagem à avó. No dia da recepção ao grupo Febtur, participou da produção de delícias artesanais

Enquanto eu ditava a mim mesma esse relato, no calor da emoção, eu me deparei com uma placa em que estava inscrita a frase Red de Agroecologia e eu percebi que naquela comunidade tem todos os elementos da agroecologia. Tem mulheres, tem juventude, tem respeito à natureza.

Tem vida em comunidade, ou seja, essa vila  é exatamente a simbologia de que viemos do pó e ao pó retornaremos. Viva a natureza, viva a Mãe Terra, viva a agroecologia e viva essa comunidade tão linda em Canelones, no Uruguai, em São Jacinto.

Eliade Pimentel é jornalista e guia de turismo e atua primordialmente no Rio Grande do Norte (com passagens pela Fundação José Augusto e jornalismo cultural potiguar). Vive entre três destinos turísticos: Baía Formosa, Natal e Parnamirim. Atualmente é membro da Federação de Jornalistas e Comunicadores de Turismo (Febtur/RN).